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A Pedagogia da Consciência: da Gênese da Opressão Às Escolas da Neutralidade

Resumo

O presente ensaio propõe uma leitura histórico-filosófica da *Pedagogia do Oprimido*, de Paulo Freire, como desdobramento de uma longa trajetória humana marcada pela disputa entre conhecimento e poder. A partir de uma perspectiva que une antropologia, sociologia e filosofia, examina-se a gênese da opressão intelectual desde a antiguidade até o século XXI, destacando as formas modernas de controle ideológico manifestas em movimentos como “Escola sem Partido” e nas escolas cívico-militares. Conclui-se que o pensamento crítico permanece a mais essencial forma de liberdade e que toda tentativa de neutralizar a educação representa, paradoxalmente, um projeto de poder.

Palavras-chave: Paulo Freire; Pedagogia; Opressão; Consciência crítica; Escola sem Partido; Filosofia da educação.

Abstract

This essay offers a historical and philosophical interpretation of Paulo Freire’s *Pedagogy of the Oppressed* as a continuation of humanity’s long struggle between knowledge and power. From an anthropological, sociological, and philosophical perspective, it examines the genesis of intellectual oppression from antiquity to the 21st century, highlighting modern forms of ideological control such as the ‘Nonpartisan School’ movement and military civic schools. It concludes that critical thinking remains the most essential form of freedom and that every attempt to neutralize education paradoxically represents a project of power.

Keywords: Paulo Freire; Pedagogy; Oppression; Critical consciousness; Nonpartisan School; Philosophy of education.

1. Introdução

A história da civilização humana revela uma constante: em todas as épocas, o saber foi instrumento de dominação ou de libertação. Desde os escribas egípcios e filósofos gregos até os educadores modernos, o ato de ensinar nunca foi neutro. Paulo Freire, ao elaborar a Pedagogia do Oprimido (1968), insere-se nesse mesmo horizonte histórico, ao propor uma educação da consciência e não apenas da técnica.

O século XX, especialmente sob o clima da Guerra Fria, representou o ápice da disputa entre ideologias políticas e epistemológicas. Capitalismo e comunismo dividiram o mundo em blocos antagônicos, ambos reivindicando o monopólio da verdade. Nesse ambiente, a pedagogia freiriana foi compreendida por muitos como insurgente, pois pretendia devolver ao sujeito o poder de ler o mundo antes de ler a palavra.

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Todavia, para compreender plenamente a proposta de Freire, é necessário retroceder às raízes antropológicas da opressão — à história milenar em que o domínio do conhecimento determinou o domínio dos homens.

2. A gênese da opressão e o nascimento da consciência

Nos períodos clássicos, o ensino foi privilégio dos que detinham o poder político e econômico. Em Esparta, a educação moldava guerreiros obedientes; em Atenas, formava oradores e filósofos.

Platão já advertira, em A República, que controlar a educação é controlar a cidade.

Durante o Império Romano e a Idade Média, o saber foi confinado a elites religiosas e políticas. O Renascimento e o Iluminismo romperam parcialmente essa lógica ao reabilitar a razão crítica. O lema kantiano “sapere aude” — ouse saber — prenunciou o que Freire mais tarde chamaria de ato de conscientização: a capacidade de questionar o mundo em que se vive.

No entanto, a Revolução Industrial e o positivismo do século XIX converteram a educação em instrumento de disciplinamento social. O ensino passou a servir à produtividade, e o pensamento foi reduzido à utilidade. A alfabetização tornou-se funcional, e não emancipadora.

É contra esse modelo que Paulo Freire se insurge, ao afirmar que o aprendizado deve ser ato de criação, e não de domesticação.

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3. A pedagogia freiriana como libertação do humano

A Pedagogia do Oprimido parte de um princípio ético: o ser humano é histórico e inacabado.

Educar é participar do processo de tornar-se mais humano.

Freire rejeita a “educação bancária”, na qual o professor deposita conteúdos em mentes vazias, e propõe a educação dialógica, fundada na troca, na escuta e na reflexão crítica.

O educador pernambucano compreendia que o oprimido não se liberta apenas pela leitura, mas pela interpretação do mundo que o cerca. Alfabetizar o lavrador significava fazê-lo perceber as causas da pobreza que o aprisionava, questionar a estrutura que o mantinha cativo.

Contudo, a libertação do oprimido implica também a libertação do opressor.

“A libertação é um ato de amor aos homens; é a luta de ambos, oprimidos e opressores, para recuperar sua humanidade.”

(FREIRE, 1968).

Trata-se, portanto, de uma pedagogia universal, que denuncia o ciclo da dominação e propõe a restauração do diálogo como fundamento da existência ética.

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4. O controle do saber e a pedagogia do silêncio

A história mostra que o poder teme o pensamento livre. De Sócrates a Giordano Bruno, de Galileu a Freire, todo educador que despertou consciências enfrentou perseguição.

No século XXI, o controle do saber reaparece em novas formas — mais sutis, mas igualmente eficazes: a ideologia da neutralidade.

Movimentos como o Escola sem Partido, surgido no Brasil em 2004, afirmam pretender eliminar a “doutrinação ideológica” do ensino. Entretanto, sob o prisma da sociologia da educação, trata-se de uma contradição lógica: não existe ensino neutro.

Toda seleção de conteúdos, todo silêncio imposto ou toda omissão curricular é também uma escolha política.

Fenômenos semelhantes ocorrem em outros países.

Nos Estados Unidos, projetos de lei em diversos estados restringem o ensino de temas como racismo estrutural e identidade de gênero.

Na Hungria e na Polônia, governos nacionalistas reescrevem currículos para alinhar a educação a valores patrióticos.

O padrão é recorrente: a tentativa de uniformizar a consciência sob o pretexto de preservar a moral.

5. As escolas cívico-militares e a pedagogia da disciplina

As escolas cívico-militares representam outra faceta dessa tendência.

Inspiradas em valores de hierarquia e disciplina, visam à formação de cidadãos ordeiros e eficientes.

Embora promovam organização e desempenho, sacrificam o espaço da dúvida — elemento vital à filosofia, à arte e à ciência.

Michel Foucault (1975) advertia que a disciplina não apenas educa, mas produz corpos dóceis; Pierre Bourdieu (1975) demonstrou que o sistema escolar tende a reproduzir a desigualdade sob aparência de mérito.

A educação, quando reduzida à obediência, perde sua função emancipadora.

A escola deixa de ser lugar de pensamento e converte-se em instituição de adestramento simbólico.

Ao contrário, para Freire, a escola deve ser o laboratório do humano: o espaço onde o sujeito experimenta a liberdade de ser e de pensar.

6. A pedagogia da consciência como herança humanista

Freire defendia que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se opressor”.

A frase sintetiza o paradoxo contemporâneo: ao negar o pensamento crítico, a sociedade fabrica servos que aspiram à tirania.

A exclusão das disciplinas de filosofia, história e sociologia de currículos escolares — tendência observada em vários países — representa, segundo Boaventura de Sousa Santos e Martha Nussbaum, uma ameaça direta à democracia, pois destrói as bases da empatia e da reflexão ética.

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A pedagogia freiriana, nesse sentido, não pertence ao passado.

Ela constitui uma resposta permanente às forças que buscam transformar o homem em instrumento.

Educar é resistir; é afirmar, contra todas as formas de censura, que o pensar é o gesto inaugural da liberdade.

7. Conclusão

Da pólis grega às escolas cívico-militares, da Inquisição à Guerra Fria, o eixo invisível da história é a disputa sobre quem pode pensar e o que pode ser dito.

A pedagogia da consciência, formulada por Paulo Freire, reinterpreta essa história sob um prisma humanista: ensinar é um ato político, e todo ato político é escolha entre emancipação e dominação.

A suposta neutralidade educacional converte-se, portanto, na mais eficiente forma de censura.

Como afirmava Hannah Arendt, “a essência da educação é a natalidade — o nascimento de algo novo no mundo”.

Eliminar o pensamento crítico é impedir o nascimento do novo, é condenar o homem à repetição daquilo que o oprime.

A liberdade, conclui-se, não é dom que se recebe, mas consciência que se conquista.

Enquanto houver quem ensine o outro a pensar por si, a pedagogia de Paulo Freire permanecerá viva — não como doutrina, mas como herança universal da dignidade humana.

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Referências

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Chicago: University of Chicago Press, 1958.

BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Paris: Gallimard, 1975.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

KANT, Immanuel. Resposta à Pergunta: Que é o Esclarecimento? 1784.

NUSSBAUM, Martha. Sem Fins de Lucro: Por que a Democracia Precisa das Humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Cruel Pedagogia do Vírus. Coimbra: Almedina, 2020.

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